Manezês: expressões típicas do jeito de falar de Floripa

Descubra o manezês, o jeito único de falar dos nativos de Floripa, com expressões cheias de humor, afeto e identidade.

Mais do que um simples sotaque, o manezês é uma marca registrada da cultura de Florianópolis. Com raízes profundas na colonização açoriana do século XVIII, o modo de falar dos manezinhos — como são carinhosamente chamados os nativos da Ilha de Santa Catarina — mistura o português arcaico dos Açores, a oralidade popular brasileira e uma criatividade linguística que encanta quem ouve.

Essa forma peculiar de se expressar se manifesta em sons arrastados, entonações cantadas e expressões que, à primeira vista, podem parecer enigmáticas, mas que revelam todo o humor, afeto e autenticidade do povo da Ilha. Trocar o “s” por “sh”, engolir o “r” das palavras ou conjugar o “tu” com a naturalidade de quem não deve nada à norma culta são apenas algumas das marcas do manezês.

Mais do que uma variação do português, o manezês é patrimônio imaterial — presente nas músicas do Dazaranha, nas pesquisas do folclorista Franklin Cascaes (1908-1983),  na fala de personalidades da mídia como o jornalista e agitador cultural Aldírio Simões (1942-2004), criador do Troféu Manezinho da Ilha, e dos cronistas esportivos Miguel Livramento (1942-2023) e Roberto Alves e no cotidiano de quem vive (ou visita) Floripa – passe pelas bancas de peixe no Mercado Público, se dúvida…

A seguir, apresentamos uma seleção das expressões mais típicas do manezinho da Ilha. Uma viagem linguística por esse dialeto afetivo, divertido e, sobretudo, identitário. Se você entender, é porque já virou da casa. Se não entender… mofas com a pomba na balaia!

 

Expressões típicas do manezinho da ilha

Vou descer
Ir para a cidade, se deslocar até o Centro. “Quésh alguma coisa da rua? Vou descer amanhã cedo”.

Tá pisado
Machucado, ferimento, hematoma. “Meu filho caiu na escola e se pisou todo, tadinho”.

Mô Quirido
Meu querido. Escrito com i para representar a oralidade. “Tax bonzinho, mô quirido?”.

Coza mash linda
Pode ser usado para se referir a algo ou alguma pessoa muito bonita, ou também uma expressão para demonstrar satisfação quando algo dá certo. “Consegui um emprego e começo na segunda-feira. Coza mash linda”.

Segue reto toda a vida
Ir de um ponto a outro sem desviar da rota. Instrução de caminho, direção a ser tomada. “Segue reto toda a vida que vais chegar em Biguaçu, não tem?”

Dazumbanho
Arrasou. Essa expressão indica um elogio para um grande acerto, uma façanha, um trabalho bem feito.
“Côza linda esse peixinho na brasa, mô quirido! Dazumbanho, és o melhor!”
Também pode ser usada de forma irônica diante de uma falha ou uma decisão errada. “Dazumbanho, tanso. Eu disse que era pra virar à direita”.

Ézum monstro
Quando a pessoa é a melhor no que faz, tem um talento acima da média. “Ô Guga, ézum monstro, um ‘femônemo’”.

Ézo melhor
O mesmo que “és o cara”. Serve tanto como elogio quanto agradecimento. “Obrigado por ter me ajudado, amigo. Ézo melhor”.

Seo amarelo!
Termo pejorativo semelhante a istepô. Amarelo também pode significar pessoa doente. O termo foi popularizado pelo colunista Cacau Menezes na televisão, no seu quadro “Põe na tela, amarelo”.

Seo tanso!
É uma das expressões mais usadas e com a maior quantidade de sinônimos do manezês. Quer dizer “pouco esperto” e corresponde também a banzo, mazanza ou boca moli. “Perdesse o ônsh (ônibus), foi, seo tanso?!”

Mofas com a pomba na balaia
Uma das frases mais enigmáticas para quem chega na Ilha. Pode ser entendida como “vai morrer esperando”, esperar por muito tempo sem conseguir o que deseja. “Nem adianta, nego. Mofas com a pomba na balaia”.

Boca Moli
Pessoa tapada, tansa. Essa expressão ganhou popularidade nos últimos anos com o personagem Darci, criado pelo compositor e guitarrista do Dazaranha Moriel Costa. “Perdesse o show do Daza mais a Camerata, seo boca moli!”

Istepô
Significa desgraçado, pessoa que não presta. Além do xingamento, istepô pode ser alguém que atrapalha, de propósito. Essa palavra é utilizada na maioria das vezes em tom de brincadeira, entre amigos.

Não istrova
Expressão usada para dispensar alguém que está importunando. O mesmo que “não incomoda”. Istrova também significa enticar, inticar ou entisicar no dialeto manezês. “Não istrova, istepô!”

Arrombassi
Pode significar tanto um elogio quanto uma crítica. “Arrombassi nessa tainha escalada” ou “Arrombassi com esse atraso todo”.

Mazanza
O mesmo que tolo, tanso. “Deixa de ser mazanza. Não tás vendo que é mentira?”

Bucica
O mesmo que cadela ou vira-lata fêmea. “Ô Maneca, já desse comida pra bucica?”

Se quex quex, se não quex, dix
Expressão para usar com quem está em dúvida sobre algo. “Fiz pirão pra todo mundo. Se quex quex, se não quex, dix”.

Só pra bunito
Algo feito ou dito sem utilidade. “Com essa nota dá pra ver que estudasse só pra bonito”.

Deixa de ser rênento
O mesmo que chato, irritante. “Deixa de ser rênento e come tudo que tá no prato”.

Vai cagá no mato que o aribú ti pinica!
Quer dizer que a pessoa está sendo inconveniente e você pode mandá-la para “aquele lugar” do jeito que fazem os manezinhos.

Fechar a tramela
O mesmo que calar a boca. “Fecha essa tramela que pro teu tamanho já falasse demais”.

Cor de buraco de cerca
Expressão usada quando o dia está feio, cinzento, nublado. “Hoje o dia tá com cor de buraco de cerca. Não vai dar praia”.

É dois toques, quirido!
Resposta para um pedido de ajuda ou serviço. “Pode deixar que eu resolvo. É dois toques, querido!”.

Água de barrela
Expressão usada para café fraco, sopa rala e picolé de “gelo”. “Esse café tá pura água de barrela”.

Vai cair um cacau!
O mesmo que vem um temporal por aí. “Fecha a casa que vai cair um cacau daqui a pouco!”.

Ó-lhó-lhó
Expressão que demonstra espanto, surpresa ou admiração. “Ó-lhó-lhó, o Avaí ganhou do Figueira no Scarpelli, não soubesse?”. E a expressão também está consagrada no Carnaval de Floripa por causa da “Marchinha do Mané”, do maestro André Calibrina, e que cita outras expressões muito comuns no linguajar dos manezinhos. Leia a letra:

“Marchinha do Mané”

Ó lhó lhó lhó lhó
Sou manezinho mas não sou nenhum bocó
Ó lhó lhó lhó lhó
Eh, eh, tás tolo dás um banho o bocoró

Mofas com a pomba na balaia
Já dijaoje tresontonte o quê que é
Doute uma sova seu rapagi todo tanso
Se tem pomboca deito e rolo eu sou mané
Gosto de siri e pirão d´água
Boi de mamão, camarão e berbigão
Se vens pra ilha dando uma de dotô
Eh, eh, tás tolo, te arromba istepô…

Aula extra

Assista ao vídeo do personagem Maneca, do canal Dezarranjo Ilhéu, colocando os “pingos nos is”, não tem?

Crédito de foto: Roberto Zacarias / Secom Gov SC

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