Engenhos de farinha de mandioca de SC viram patrimônio cultural do Brasil

Reconhecimento do Iphan valoriza tradição com mais de 2 mil anos ligada à produção artesanal de farinha e preservada em comunidades catarinenses.

Os Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina passaram a integrar oficialmente o patrimônio cultural do Brasil. O reconhecimento foi aprovado durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada na quarta-feira (11), no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, e resultou na inscrição do bem no Livro de Registro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A decisão reconhece uma tradição com mais de dois mil anos de história, que permanece viva atualmente em 88 engenhos de farinha em atividade, distribuídos por 13 municípios catarinenses, inclusive em Florianópolis. Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o registro representa uma reparação histórica e um reconhecimento aos grupos responsáveis por manter o conhecimento vivo. “Estamos fazendo uma reparação histórica, de um bem que dialoga com a história do povo brasileiro como um todo. Saudamos os detentores, os povos indígenas, o povo negro, as comunidades de engenho de Santa Catarina e de todo o Brasil”, afirmou.

engenho de farinha
Foto: Artur Hugo da Rosa / Rancho Cultural / Divulgação IPHAN

Tradição ancestral

Muito antes da formação do Brasil como país, a mandioca já era cultivada e transformada em farinha pelos povos Guarani e Tupi-Guarani. Pesquisas indicam que esses conhecimentos têm entre 2 mil e 3 mil anos, período em que esses povos desenvolveram técnicas para transformar uma raiz naturalmente tóxica em um alimento seguro, nutritivo e versátil.

Com o processo de colonização, novos saberes foram incorporados a essa base ancestral. No século XVIII, imigrantes açorianos chegaram ao litoral de Santa Catarina trazendo técnicas de moagem e sistemas de tração animal inspirados nos moinhos de trigo europeus. Ao mesmo tempo, africanos escravizados contribuíram com conhecimentos de agricultura, carpintaria e construção de engrenagens de madeira, elementos que passaram a integrar a estrutura dos engenhos.

Da combinação dessas influências indígena, africana e açoriana surgiu a chamada “farinha polvilhada”, característica da produção catarinense, conhecida pela textura fina, cor clara e riqueza em polvilho. No auge desse sistema produtivo, em 1797, Santa Catarina contava com 884 engenhos de farinha em funcionamento, que sustentavam a economia local no chamado “ciclo da farinha”.

farinhada do divino
Foto: Allan Carvalho / Divulgação PMF

Engenhos como espaços de cultura e convivência

Mais do que unidades produtivas, os engenhos são espaços de convivência comunitária e transmissão cultural. É neles que ocorre a farinhada, mutirão tradicional em que vizinhos e familiares se reúnem para realizar coletivamente as etapas do processo produtivo.

Durante a atividade, alguns raspam e lavam a mandioca, outros operam a prensa, controlam o forno ou peneiram a massa. A produção é acompanhada por elementos culturais como as ratoeiras, cantigas tradicionais entoadas durante o trabalho, e apresentações do Boi de Mamão, manifestação artística que combina teatro, dança e música e anima crianças e adultos durante as jornadas nos engenhos.

O funcionamento de um engenho envolve diferentes papéis e conhecimentos especializados. Entre eles estão os forneiros e forneiras, responsáveis por torrar a farinha no forno e controlar o ponto ideal do produto, habilidade que depende da sensibilidade do cheiro, do tato e da observação da massa. Historicamente, muitas mulheres desempenharam esse trabalho em jornadas intensas e manuais.

Há também o chamado “engenheiro de farinha”, denominação utilizada pelos próprios detentores para designar quem domina todas as etapas da produção, além dos mestres e mestras, guardiões das técnicas e receitas tradicionais. O ciclo produtivo começa com os agricultores familiares, responsáveis pelo plantio, cultivo e colheita da mandioca, integrando a produção à subsistência das famílias e ao modo de vida rural.

engenho floripa
Foto: Allan Carvalho / Divulgação PMF

Patrimônio cultural vivo

Os saberes associados aos engenhos de farinha envolvem técnicas como descascamento manual, ralagem, prensagem, peneiramento e torra da massa em forno à lenha, além do uso de instrumentos tradicionais e do manejo sustentável das variedades de mandioca. Transmitidos principalmente pela oralidade e pela prática cotidiana, esses conhecimentos conectam produção alimentar, identidade cultural e relações comunitárias, reafirmando o vínculo entre território, memória e modos de vida.

Com o registro no Livro dos Saberes do Iphan, os engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina passam a ser reconhecidos como patrimônio cultural imaterial do Brasil, fortalecendo iniciativas de preservação, valorização e transmissão desse legado às próximas gerações.

Assista ao documentário produzido pelo IPHAN.

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